AS PAIXÕES
políticas turvaram a discussão sobre
a prorrogação da CPMF. Em vez de
um debate tecnicamente competente sobre vantagens
e desvantagens de um tributo sobre movimentação
financeira, as lideranças políticas
e empresariais brasileiras enveredaram por uma
trilha de irracionalidade, chavões, palavras
de ordem e inconsistência programática.
Agora a CPMF está morta. E é bom
que assim permaneça. Resta avaliar as suas
conseqüências.
Em seu regozijo prematuro, os algozes da CPMF
afirmam terem feito um favor ao país. Para
eles, a CPMF era o pior dos tributos, regressivo,
cumulativo, distorcivo, irracional, antidesenvolvimentista.
A primariedade do raciocínio chegou às
raias da comicidade ao pomposamente concluírem,
horrorizados, que os gastos com a CPMF superavam
as despesas familiares com arroz e feijão!
Resta indagar o que pensam então do ICMS
e do Imposto de Renda, que custa para a família
mediana brasileira quase o mesmo que todas as
suas despesas com saúde, educação,
lazer, habitação etc., incluindo
o arroz e o feijão.
Esses mesmos adversários da CPMF irão
em breve ficar preocupados, pois serão
chamados a avalizar seus tenebrosos diagnósticos
contra a CPMF e a comprovar os ganhos do país
com a sua eliminação.
Caberá a eles comprovar que, a partir da
morte da CPMF, o país terá mais
competitividade em suas exportações,
os pobres comerão mais arroz e feijão,
a distribuição de renda terá
melhorias imediatas, as empresas não mais
se verticalizarão, os salários reais
aumentarão, os preços cairão
e os bancos terão significativos aumentos
de depósitos de clientes que guardavam
dinheiro embaixo de seus colchões para
economizar impostos. Vamos aguardar para ver o
que vai acontecer.
Mas, e se o governo aumentar outros impostos?
E se o superávit fiscal minguar e o "investment
grade" demorar mais para chegar? E se os
cortes de gastos públicos afetarem a saúde,
a educação e a segurança?
Se isso ocorrer, por certo os algozes da CPMF
dirão que o culpado é o governo
ineficiente. Estarão parcialmente corretos,
mas, com certeza, jamais admitirão que
parcela da culpa cabe ao súbito e violento
garroteamento das receitas públicas aplicado
pela oposição e pelos infiéis
da base de apoio.
Por outro lado, é surpreendente verificar
que o governo e seus representantes jamais imaginaram
que isso pudesse acontecer e se deixaram pegar
literalmente de calças curtas. Acreditaram,
mais do que deviam, na poder de suas canetas para
liberar verbas e nomear apadrinhados, prática
que jamais fora desafiada no passado recente da
política brasileira.
Infelizmente, nessa geléia geral de improvisação
e oportunismo, quem sofrerá é o
contribuinte e os pobres, que mais necessitam
dos serviços públicos.
Mas, como rei morto é rei posto, vale lutar
pelo imposto único.
A verdade é que a movimentação
financeira se revelou um tributo justo, simples,
barato, eficiente e que vem suscitando enorme
interesse e curiosidade por parte de tributaristas
em todo o mundo. Será a base tributária
do futuro.
Não causou distorções nos
preços, não destruiu exportações
nem gerou desintermediação financeira.
Ampliou o universo de contribuintes, incorporando
às receitas públicas a arrecadação
de informais, ilegais e sonegadores contumazes.
Revelou-se um tributo proporcional em sua incidência
sobre o consumo das famílias.
Com uma alíquota baixa, de 0,38%, que poucos
correntistas bancários se davam ao trabalho
de conferir em seus extratos bancários,
a CPMF arrecadou R$ 32 bilhões no ano passado,
mais que todo o IPI (R$ 28 bilhões) e o
equivalente a 60% do IRPJ (R$ 54 bilhões),
sem um único tostão de custo burocrático
para as empresas ou para o governo, sem achaques,
sem corrupção, sem quadrilhas organizadas
para burlar o fisco.
É hora, portanto, de pensar se a movimentação
financeira não deveria ressurgir. Não
como a CPMF, que foi a desmoralização
de um bom imposto, mas como a base de um novo
sistema tributário, como inicialmente projetado
na proposta do imposto único.
Roberto Campos havia notado que, ao criar a CPMF,
o PSDB havia se aproveitado da metodologia arrecadadora
da movimentação financeira, mas
ignorado sua ideologia simplificadora. Tornou
grosseiro um instrumento sofisticado, como se
um florete de esgrima tivesse sido usado para
cortar grama.
Está na hora, portanto, de recolocar o
imposto sobre movimentação financeira
em seu devido lugar, ou seja, no centro de um
projeto de reforma tributária para o país. |