UMA
TEMPESTADE, ou um incêndio, é terrível.
Mas o pior pode vir depois, em seu rescaldo. A atual
crise financeira semeou o pânico em todos os
mercados do mundo.
A globalização e os misteriosos instrumentos
financeiros criados nas últimas décadas
fizeram um trabalho de quase completa destruição
da credibilidade das instituições financeiras
mundiais.
Felizmente, tudo indica que esse tempo passou. Mas
fica uma esteira de destruição de valores
por todo o espaço econômico global. Cabe
agora juntar os cacos e avaliar o que o futuro nos
reserva.
Inicialmente, cabe apontar que, apesar de a violência
do olho do furacão já haver se dissipado,
o ambiente econômico é alarmantemente
negativo. A crise financeira já contaminou
os mercados reais. A falta de crédito, o entesouramento
de valores e a suspensão dos investimentos
já comprometeram o crescimento econômico
futuro pela via dos canais de comércio e de
transferências de capitais. A virulência
da recessão que se avizinha já assusta
as economias de todo o mundo desenvolvido, e a expectativa
otimista de que os países emergentes seriam
capazes de sustentar, ainda que fragilmente, a economia
mundial torna-se cada dia mais irrealista.
Nesse terreno desolado existe apenas a sensação
confortadora de que a pronta ação das
autoridades econômicas em todo o mundo foi capaz
de controlar o pânico. Balões de oxigênio
contendo pura liquidez foram distribuídos abundantemente,
mas, como alertou Anna Schwartz, em entrevista recente,
o problema fundamental pode estar alhures, ou seja,
na perda de credibilidade do sistema quanto à
sua solvência. Reconstruir esse monumental edifício
pode levar décadas.
O que esperar daqui para a frente?
Certamente haverá um período de acomodação
dos mercados, como o que estamos adentrando no momento.
Os fundamentos econômicos passarão a
ser reavaliados, e as oportunidades de investimento
serão timidamente avaliadas nos próximos
seis meses a um ano. Os primeiros balanços
e demonstrações de lucros e perdas após
a tormenta ainda irão assombrar os mercados
e os investidores. A volatilidade e a incerteza irão
prevalecer, porém dentro de faixas estreitas
e mais racionais. Essa deverá ser a marca dos
meses à frente. Determinar valor de qualquer
ativo será uma tarefa difícil e altamente
arriscada. Será a hora das oportunidades, quando
surgirão os vencedores dessa crise, e quando
o mundo estará escolhendo seus novos jogadores
estratégicos.
Mas, como afirmei no início, o pior será
o rescaldo. Como o mundo irá drenar a crescente
liquidez que alaga os mercados mundiais? Como evitar
as pressões inflacionárias que surgirão?
Como refluir os capitais públicos que invadiram
os "board rooms" das empresas em todo o
mundo? Como evitar que a intervenção
estatal, necessária no momento como um típico
"bem público", seja confundida com
a estatização da gestão e com
os ultrapassados métodos de produção
centralizados? Como reconquistar credibilidade para
o mercado e permitir que ele continue sendo o melhor
mecanismo gerador de riqueza já usado pela
humanidade? Como administrar o crescente endividamento
do setor público e evitar o crescimento da
carga tributária? Que blindagens contra futuras
crises serão erigidas e que restrições
ao crescimento econômico elas poderão
implicar?
Não temos respostas para essas dúvidas.
O futuro será um emocionante desenrolar de
novos desafios.
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