Mateus da Costa
Pinto, ao lançar as sementes do primeiro núcleo,
destinado a forasteiros que vinham para estas montanhas
atraídos pela excelência do clima, plantou
os alicerces da cidade que nascia sob o signo da doença.
Ele próprio adquiriu terras nos altos da Mantiqueira
objetivando construir casa para descanso e recuperação
da saúde.
O Dr. Domingos Jaguaribe, no final do século,
adquiriu boa parte das terras de Mateus da Costa Pinto
e constituiu a Companhia Brasileira de Colonização,
responsável pelo desenvolvimento de vasta Área
desde o Vale do Imbiri ao Alto da Boa Vista.
O Dr. Domingos Jaguaribe alardeou em todo o País
as qualidades terapêuticas do ar puro desta
terra, acompanhado por Emílio Ribas e Vitor
Godinho, sanitaristas de renome e grandes divulgadores
do milagre que o clima proporcionava na recuperação
da saúde.
O povoado que nasceu em 1874 transformou-se em estância
de repouso e, na década de 20, firmava-se como
centro de tratamento de doenças pulmonares,
procurado por enfermos de todas as partes do País.
Da vila-mater de São Mateus do Imbiri, mais
tarde denominada Vila Jaguaribe, a cidade estendeu-se
pelo vale do ribeirão Capivari dando origem
a outros bairros, urbanizados pelos pioneiros Robert
John Reid - Vila Abernéssia e o Embaixador
José Carlos de Macedo Soares - Vila Capivari.
Para atender à grande demanda de doentes que,
em número sempre crescente, procuravam a estância,
foram construídos sanatórios - o primeiro,
o Divina Providência, em 1929. Em meados da
década de 40 Campos do Jordão possuía
14 sanatórios. As dezenas de pensões,
a maioria nas vilas Abernéssia e Jaguaribe
completavam os leitos, sempre insuficientes para acolher
todos os doentes.
Foi a primeira fase da Estância, da solidariedade
humana, o ciclo da doença, decantada de forma
romântica por Dinah Silveira de Queiroz em "Floradas
na Serra" e descrita de forma realista por Paulo
Dantas em "Cidade Enferma".
A procura do clima por personalidades do mundo social
e empresarial, principalmente de São Paulo
- o maior centro industrial da América Latina,
que aqui vieram construir suas casas de veraneio,
começou a mudar a fisionomia da cidade na década
de 30. Era o inicio da transição de
Campos do Jordão cidade-saúde para cidade-turismo.
Alguns fatores contribuíram decisivamente na
transformação: zoneamento, construção
do Palácio do Governo e construção
de hotéis exclusivamente para turistas.
O zoneamento da cidade foi feito em fins da década
de 30. A localização de sanatórios
fora da zona urbana e a proibição de
pensões para doentes na zona residencial -
medidas preconizadas pelo zoneamento - eram garantias
de que os doentes ficariam confinados nos hospitais,
podendo os turistas usufruírem plenamente da
cidade sem o receio de contágio. Estes, por
sua vez, para se hospedarem nos hotéis, apresentavam
atestados de saúde. Alguns hotéis, como
o Grande Hotel e o Toriba, tinham instalações
de Raio X.
A construção do Palácio do Governo
e o surgimento de hotéis de classe internacional
foram as molas propulsoras da transformação
da Estância. As obras do Palácio Boa
Vista foram iniciadas em 21 de julho de 1938, quando
era Interventor Federal no Estado o Dr. Adhemar de
Barros, e concluídas 26 anos depois, em 1964,
quando Adhemar voltou a governar São Paulo.
O Grande Hotel foi construído em 1944 pelo
Governo do Estado. No ano seguinte foi instalado o
cassino que funcionou até 1946. Outros hotéis
de classe internacional constituíram-se em
fatores de incremento do turismo, que nascia nessa
década: Hotel Toriba em 1943, Hotel Rancho
Alegre em 1946 e Hotel Vila Inglesa em 1947.
Em vários setores era evidente a transformação:
na Administração Municipal, enquanto
órgãos assistenciais como o DASMU -
Departamento de Assistência Social do Município
- e o Parque Sanatorial das Municipalidades eram extintos,
um órgão como a DMTUR - Diretoria Municipal
de Turismo, destinado a disciplinar as atividades
turísticas, era criado.
Também no setor privado notava-se a mudança:
a Fundação da Associação
Comercial, da Associação Hoteleira,
da JORTUR - Agência de Turismo eram sinais de
que a População começava a voltar-se
para a nova vocação jordanense: o turismo.
Acompanhando o crescente fluxo de turistas, o Estado
investiu na Estância em forma de instalação
de equipamentos turísticos e realização
de eventos artístico-culturais.
A Estrada de Ferro Campos do Jordão, de antigo
meio de transporte de doentes, passou a prestar serviços
turísticos operando trens de luxo entre Pinda
e Campos do Jordão e bondes urbanos em fins
de semana, feriados e temporadas. Antigas gôndolas
foram transformadas em auto-trem para transporte de
automóveis. Em 1971 instalou o teleférico
do Morro do Elefante e o controle da ferrovia passou
da Secretaria de Transporte para a Secretaria de Turismo.
O Festival de Inverno, que nasceu no Palácio
Boa Vista, é hoje certamente o mais importante
festival de música erudita do Pais. Para abrigar
esse evento de renome internacional foi construído
o Auditório Cláudio Santoro e, junto
a ele, o Museu Felícia Leirner.
O Parque Estadual - reserva ecológica da Mantiqueira
- criado em 1941 com o objetivo de proteger o remanescente
da mata de araucárias, tem atualmente como
meta o ecoturismo.
O avanço da medicina que introduziu o tratamento
quimioterápico em doenças pulmonares,
tornando secundário o fator clima, a desativação
dos sanatórios exclusivamente para tísicos
apagaram os últimos vestígios do primeiro
ciclo de Campos do Jordão.
Hoje a estância vive intensamente, seu segundo
ciclo, o do turismo, iniciado há meio século
com a construção do Palácio Boa
Vista.
Texto de Arakaki Masakazu
Diretor do Palácio Boa Vista durante 28 anos