A ocupação
do território paranaense se iniciou no litoral
e pode ser dividida em três grandes fases: século
XVII - ocupação do litoral e do planalto
curitibano; século XVIII - conclui-se a ocupação
dos Campos Gerais; século XIX - ocuparam-se os
campos de Guarapuava e os de Palmas. Assim, até
meados deste século, o processo de interiorização
se conclui constituindo o chamado Paraná Tradicional.
A ocupação das terras dos Campos Gerais
se iniciou logo na primeira década do século
XVIII. Local próprio para o desenvolvimento da
pecuária (tendo o seu limite sul no vale do Rio
Iguaçu e extremo norte demarcado pelo Rio Itararé),
os Campos Gerais tornaram-se então passagem obrigatória
na rota do comércio que levava gado e muares
do Rio Grande para o abastecimento de São Paulo
e das Minas Gerais.
A necessidade de abastecimento colonial tanto impulsionou
o mercado interno brasileiro, possibilitando a gradativa
integração das economias regionais, como
favoreceu, também, a ocupação de
regiões do interior paranaense.
A ligação inter-regional se fazia pelo
Caminho do Viamão, que compreendia três
rotas, sendo a via mais utilizada denominada Estrada
Real, passando pelos campos de Vacaria, Lages, Campos
Gerais e Itararé, chegando a Sorocaba.
O povoamento dos Campos Gerais foi começado em
1704, por iniciativa dos nobres potentados paulistas
José Gois de Morais e Pedro Taques de Almeida,
secundados por outros membros da ilustre linhagem, que
no mencionado ano requereram grandes sesmarias no território
paranaense, abrangendo desde a margem esquerda do rio
Itararé às cabeceiras do Tibagi.
Sendo assim, as últimas décadas do século
XIX foram marcadas pela contraposição
entre a consolidação dos núcleos
urbanos e a retração da economia rural
nos Campos Gerais. Essa economia foi quase auto-suficiente
e que oportunizou o poderio dos fazendeiros declina
pouco a pouco viabilizando o desenvolvimento das cidades.
Com a transformação do uso da propriedade,
partilhada entre o criatório e a invernagem,
com a predominância desta, que acompanhou a mudança
do fazendeiro em tropeiro, e com a ampliação
da economia monetária que a isso se seguiu, desenvolveu-se
o comércio contra a auto-suficiência das
fazendas, começando o predomínio das cidades.
Esse clima é descrito por Raul Gomes na crônica
"Ponta Grossa de Hoje". As palavras do cronista
retratam uma cidade pujante, movimentada. No dizer de
Gomes "à noite o povo flana nas ruas, penetra
nas lojas, enche os três cinemas, freqüenta
os clubs". O cronista destaca ainda o espírito
empreendedor da população que torna a
iniciativa privada mais eficiente que a dos poderes
públicos. O crescimento urbano traz novas necessidades
à cidade: calçamento das ruas - para aliviar
os problemas causados pelo pó e pela lama principalmente
aos estabelecimentos comerciais; os serviços
de água e esgoto - compatível com as novas
concepções de higiene e conforto; a construção
de um mercado e de um matadouro - com capacidade para
atender às reais necessidades da população.
Os cinemas, citados por Raul Gomes, não eram
os únicos espaços de lazer e sociabilização
da sociedade ponta-grossense. Companhias Circenses apresentavam-se
com freqüência na cidade, recebendo sempre
grande público.
A importância da cidade provém em grande
parte de sua localização estratégica:
entroncamento rodo-ferroviário do interior do
estado ligando as principais regiões econômicas
e os centros políticos.
Decisivo mesmo para a vida da cidade-encruzilhada foi
a inauguração da estrada de ferro, em
plena revolução federalista. Aliás,
o revolucionário Gumercindo Saraiva encontrou
em Ponta Grossa um acolhimento muito cordial, pois estar
nos Campos Gerais era como estar em casa, nos pampas
riograndenses, cercado de gaúchos, comendo churrasco,
tomando chimarrão e cavalgando pelos campos.
Em 1894, os trilhos da estrada de ferro vindos de Paranaguá
atingiam a cidade. Em 1899 inaugurou-se a estrada de
ferro São Paulo - Rio Grande com oficinas de
manutenção em Ponta Grossa. Esta situação
de entroncamento ferroviário fez com que Ponta
Grossa entrasse no século XX com o pé
direito. O progresso veio. Grandes engenhos de erva-mate,
beneficiamento de couro e de madeira começaram
a surgir. E olarias, pois não havia tijolo que
chegasse. Veio gente de fora atraída pela promessa
de bons negócios.
Registro da presença de Getúlio Vargas
em Ponta Grossa, quando da sua vitória na Revolução
de 1930. Símbolo da modernidade, o vagão
do trem serviu como abrigo aos militares revolucionários
no episódio que pôs fim a chamada República
Velha.Um estudo sobre a cidade revela que "as primeiras
décadas do século XX constituem uma conjuntura
extremamente favorável para a economia ponta-grossense",
o que pode ser constatado pela elevação
na arrecadação de impostos, pelas obras
construídas nessa fase, quando da instalação
de várias fábricas e estabelecimentos
comerciais cujos proprietários, em grande maioria,
eram imigrantes.
Migrações estrangeiras espontâneas
e esporádicas sempre ocorreram para o território
brasileiro. O grande movimento migratório oficial,
contudo, só se verificou na década de
1870, quando para o Paraná vieram em grande número
os russos-alemães. Em 1877/1878 chegaram em Ponta
Grossa, 2.381 russos-alemães que se estabeleceram
na Colônia Octávio, subdividida em 17 núcleos,
afastados do centro urbano. A partir de então
outros grupos foram chegando à cidade e a ela
se integrando. Entre os de maior importância estão
os poloneses, alemães, russos, italianos, sírios,
austríacos e portugueses.
A presença desses imigrantes trouxe mudanças
para as regiões paranaenses onde se instalaram,
impulsionando, sobretudo, as atividades industriais.
Essa atitude modernizadora ocorreu também em
relação a outros setores como comércio,
transporte e cultura. Tais atividades muitas vezes ocorreram
em função das dificuldades com a atividade
agrícola que os levaram a migrar para a zona
urbana. A cultura alemã, na visão de muitos
autores, apresenta um caráter associativo, o
que incentivou a fundação de clubes e
associações em muitas cidades paranaenses,
entre elas Ponta Grossa. Nessa cidade as iniciativas
para a fundação de um clube dos alemães
data de 1896.
A Cervejaria Adriática foi fundada por Henrique
Thiellen em 1904. Símbolo da industrialização
em Ponta Grossa, a Adriática chegou a contar
com mais de 120 operários nos anos iniciais do
século XX. Seu propriétario investiu em
máquinas, treinamento e propaganda, tornando-a
um referencial obrigatório para todos que escrevem
a respeito da industrialização ponta-grossense.De
acordo com o relatório do prefeito Albary Guimarães,
que administrou a cidade de 1934 a 1944, verificaram-se
transformações na cidade evidenciadas
por dados, tais como: aumento dos investimentos na área
de educação, ampliação e
construção de edifícios públicos,
melhorias nas áreas de saúde com a criação
da Maternidade Pública e de cinco Postos de Puericultura
e de saneamento básico, reforma e remodelação
dos logradouros, ampliação da rede de
iluminação pública atingindo os
três principais bairros de Ponta Grossa (Nova
Rússia, Oficinas e Uvaranas), calçamento
poliédrico nas principais ruas da cidade, crescimento
do patrimônio predial urbano, atingindo 6.958
construções em 1944.
O crescimento de Ponta Grossa nas primeiras décadas
do século XX se inscreve num contexto nacional
de desenvolvimento econômico e urbanização
que favorece sobretudo as regiões sudeste e sul
do país. Esse desenvolvimento resulta de uma
conjugação de fatores como capital, mão-de-obra,
mercado relativamente concentrado, matéria prima
disponível e barata, capacidade energética
e um sistema de transportes ligando as zonas de produção
aos portos.
Paralelamente, à crise das regiões agrícolas
de culturas tradicionais, as regiões economicamente
com o melhor desempenho atraem contingentes populacionais
marginalizados pela manutenção da estrutura
latifundiária. Se uma parte dessa população
migra para o campo, uma outra parte sente-se atraída
pelas cidades. Entre estas aquelas que são capitais
regionais ou que representam etapas importantes de corredores
de exportação são as que mais atraem
pela perspectiva de emprego que podem oferecer.
Esse quadro não tem a mesma plenitude em toda
a região dos Campos Gerais. Algumas cidades,
como Castro, ao contrário de Ponta Grossa, perdem
importância regional. Apesar das diferentes condições
econômicas os municípios dessa região
apresentavam um quadro político semelhante nos
anos 30.
Ao chegar a década de 1950, encontramos uma nova
realidade. O Paraná buscava uma nova identidade
regional devido ao crescimento vertiginoso de sua população,
a ampliação de suas fronteiras e o impulso
econômico da lavoura cafeeira. A terra roxa e
o café fizeram a riqueza e a importância
política de sua região norte
Nesse contexto, iniciou-se também para Ponta
Grossa um novo período histórico. A cidade,
historicamente vinculada ao tropeirismo e a economia
agrária - a Ponta Grossa camponesa -, e que no
princípio do século XX experimentou um
momento de euforia urbano capitalista - a Ponta Grossa
princesa -, ingressou numa fase correspondente àquela
vivida pelo Paraná. A busca de uma nova identidade
transformou-se no grande desafio para os ponta-grossenses
a partir de então.
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